sábado, 1 de março de 2008

REVISTA SÁBADO reportagem com INEM - ACIDENTE NO CASAL BRANCO - Foi uma das reportagens efectuadas.





Relato da Ocorrência
Homem
19 anos
Homem
19 anos
Homem
+ de 30 anos
Homem
19 anos
Acidente de Viação
Local: Estrada Nacional 118, entre Almeirim e Alpiarça
30 de Março de 2007
Temperatura: º C
Hora de Chamada: 18h40m
Chegada ao Local: 18h48m
Chegada ao Hospital: 20h07m, Hospital de Santarém
Meio: VMER de Santarém, 4 ambulâncias de Bombeiros

Chamada do utente

Operador CODU – Emergência médica, boa tarde.
Utente – Está sim? Boa tarde, é o seguinte, a seguir a Benfica do Ribatejo houve uma colisão frontal. Eu penso que uma das pessoas está encarcerada dentro do carro e não consegue sair.
Operador CODU – Ela está acordada?
Utente – Estão ambos acordados, tanto de um carro como do outro.
Operador CODU – A pessoa não consegue sair, é isso?
Utente – Eu penso que tanto de um carro como do outro não conseguem sair.
Operador CODU – OK, diga-me uma coisa, essa estrada vai de onde para onde?
Utente – Diga?
Operador CODU – A estrada vai de onde para onde?
Utente – De Benfica do Ribatejo para Almeirim. Um dos carros está a deitar imenso fumo.
Operador CODU – Isto é em que sítio da estrada?
Utente – É ao pé daquela Adega dos Vinhos, que vende vinhos.
Operador CODU – OK, nós vamos já enviar o socorro para aí. Diga às pessoas para não se mexerem, está bem?
Utente – Pronto, está certo, obrigado.
Operador CODU – Pode desligar então, minha senhora.

Accionamento dos Bombeiros Voluntários de Almeirim

Bombeiros Voluntários de Almeirim – Bombeiros de Almeirim, boa tarde.
Operador – Estou Almeirim? É CODU. Temos uma colisão frontal entre duas viaturas ligeiras. É na estrada de Benfica do Ribatejo para Almeirim perto da Cooperativa dos Vinhos.
BV Almeirim – Sim.
Operador – Temos dois feridos encarcerados.
BV Almeirim – Sim.
Operador – Ambos condutores das viaturas.
BV Almeirim – Sim.
Operador – Está bem?
BV Almeirim – OK.
Operador – Depois precisávamos que nos dissessem alguma coisa, assim que chegassem ao local.
BV Almeirim – Está bem.
Operador – Número de ficha 133.
BV Almeirim – 133.
Operador – 0, 6, 3.
BV Almeirim – 0, 6, 3.
Operador – As vítimas estão conscientes, mas as duas encarceradas.
BV Almeirim – Está bem, está bem…
Operador – Até já, então.

Accionamento da VMER de Santarém

VMER Santarém – Estou sim?
Operador CODU – Estou, VMER? É CODU.
VMER Santarém – Diga.
Operador CODU – Temos uma saída para Almeirim.
VMER Santarém – Sim.
Operador CODU – Para uma colisão entre dois veículos ligeiros, uma colisão frontal. Temos dois feridos encarcerados, disseram-nos que estavam conscientes.
VMER Santarém – Onde é?
Operador CODU – É na estrada Benfica do Ribatejo, Almeirim, perto da Cooperativa dos Vinhos. Fica mais próximo de Almeirim, segundo nos disseram.
VMER Santarém – Cooperativa…
Operador CODU – … dos Vinhos…
VMER Santarém – Sim.
Operador CODU – O número de ficha, 133…
VMER Santarém – 133…
Operador CODU – 0, 6, 3…
VMER Santarém – 0, 6, 3…
Operador CODU – Está bem?
VMER Santarém – OK, vamos a caminho.
Operador CODU – Os Bombeiros diziam qualquer coisa assim que chegassem ao local. Se houver alguma indicação ligamos, está bem?
VMER Santarém – OK, vá.
Operador CODU – Até já.


Levanta-se do carro pelo próprio pé, mas as dores derrubam-no ao fim de dois passos. Deitado de barriga para baixo no alcatrão, Tiago contorce-se junto ao que resta de um Seat Ibiza novo em folha. Foi vítima de um acidente brutal. Está agitado, nervoso. Queixa-se das costas, grita, pede ajuda. À primeira vista, só tem escoriações ligeiras – a camisa da farda da Marinha continua imaculada, sem pinga de sangue. Parece um ferido ligeiro, muito menos grave dos que os dois homens encarcerados ali perto nos respectivos carros. O avançar das horas há-de provar o contrário. Populares e bombeiros pedem-lhe que fique quieto. A ajuda vem a caminho. Tiago nem os ouve. Tem dores, muitas dores.
A estrada nacional 118 entre Almeirim e Alpiarça lembra um cenário de guerra. Há óleo, vidros, CDs partidos, e pedaços de pára-choques espalhados no chão. Um operário da construção civil seguia na faixa certa quando um carro com três marinheiros – Tiago incluído – perdeu o controlo e lhe bateu de frente. Era sexta-feira, os rapazes iam passar o fim-de-semana a casa. Vinham cansados, adormeceram. Num instante, os dois Seat Ibiza – um novo e um velho – ficaram reduzidos a chapa amolgada e disforme.
A poucos metros de Tiago, na berma oposta, André segura o braço esquerdo, sob a atenção de outro grupo de bombeiros. Tem as queixas normais de quem partiu um osso. O seu estado, vê-se logo, não é dramático. Os condutores parecem pior. Presos nos escombros dos respectivos veículos, têm as caras ensanguentadas e indícios de traumatismos múltiplos. Só um deles, Emílio, está consciente. O segundo André, o outro condutor, tem os olhos verdes abertos. Mas é incapaz de articular uma palavra. Um bombeiro senta-se a custo no banco de trás do carro dele – o espaço dentro do carro reduziu com o impacto. Envolve-lhe o pescoço num colar cervical e prepara-se para uma longa temporada na mesma posição. Vai ficar ali a conversar com o rapaz mais de uma hora, até que por fim retirem a vítima para a ambulância.

O cenário é caótico quando a sirene da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) se ouve. O carro rápido saiu de Santarém há poucos minutos, cruzou a Ponte Salgueiro Maia em segundos e foi ter ao local do acidente sem enganos na rota. A equipa sabe apenas que há quatro feridos. Tudo o resto é surpresa. O acidente fez cortar a estrada e a fila de carros alonga-se por vários quilómetros. O enfermeiro Nuno Fernandes ultrapassa¬ os em contramão, sem qualquer perigo – não há circulação em nenhum dos sentidos de trânsito. Pára a carrinha Volkswagen Passat à entrada da Quinta do Casal Branco, uma propriedade onde se produz vinho. No ar, o cheiro a travagem recente mistura-se com o do mosto. Junto à vedação, já se reúnem populares. Querem ver o que se passa. Por agora, Nuno e o médico Paulo Alves nem reparam neles. Depois, pedem a alguém que afaste os mirones para lá das fitas que isolam o local.
Saltam do carro em silêncio. Cada um sabe o que tem a fazer. Observam as vítimas uma a uma. A primeira triagem é rápida e serve para determinar quem precisa de cuidados mais urgentes. Há mais de 20 bombeiros no local, mas as equipas estão dispersas. O enfermeiro descobre quem comanda os operacionais e dá indicação para que se distribuam em grupos pelos doentes. Nenhum deles deve ficar só.
Enquanto Nuno Fernandes trata da logística, Paulo Alves avalia os doentes. Anota todos os dados num bloco A4. Um dos dois Andrés parece ter apenas o braço esquerdo partido, mas por precaução é melhor imobilizá-lo antes de o conduzir ao hospital. De todos, é o que tem mazelas mais ligeiras. Segue de imediato para Santarém – menos uma preocupação. Chega a vez de Tiago. Mantém-se consciente, deitado no chão, queixoso. Grita quando o médico lhe apalpa o abdómen alterado, sintoma típico de grande traumatismo ou hemorragia interna. Os bombeiros cumprem a ordem do clínico: deitam-no no plano duro para garantir que ele não se mexe e preparam-no para entrar na ambulância. Ali será observado dentro de instantes. É preciso estabilizá-lo antes do transporte para a unidade hospitalar.
Próximo doente: André, mais um marinheiro. Continua encarcerado e ainda tem o mesmo bombeiro à cabeceira. Não fala. Apenas escuta. Com o choque, o motor invadiu o habitáculo e deixou-lhe as pernas e os pés presos por chapa amolgada. Pelos gemidos de dor, ficou mal tratado. De todas as vítimas é a que parece mais grave. Sangra muito do nariz, está prostrado. As suspeitas da equipa médica confirmam-se. Além das fracturas dos membros inferiores e do nariz, sofreu um traumatismo craniano. Medem-lhe a tensão: 173/99. Bastante alta, pode ser da ansiedade. “Então o melhor é pôr um lactato (tipo de soro) lentinho, não é?”, sugere o enfermeiro. Apesar de tudo, a situação não é tão má como aparenta. O médico dá instruções: têm de mantê-lo quieto até chegar o alicate próprio para cortar o carro. E só podem removê-lo com o colete de imobilização vestido – é a única forma de evitar lesões na coluna enquanto não o deitam no plano duro. “Quem é que tem um plano, uma aranha [conjunto de fitas para prender o doente à maca] e um colete? Para aqui!”, apressa o enfermeiro. “O senhor não se mexe. Nós é que fazemos tudo!”
Paulo Alves conhece bem os protocolos. Como a operação vai demorar, passa ao último doente, entalado nos escombros do outro Ibiza. Emílio bateu com tanta força no volante que o deixou completamente amolgado. Tem aquele momento marcado a negro no tórax inchado. Quem sabe não terá algumas costelas partidas. Agora recupera do susto, consciente e orientado. O médico ausculta-o, procura sinais de alarme. À primeira vista, nada indica ferimentos preocupantes. Para bem dele, não é o doente prioritário. Irá aguardar que o retirem do veículo, com o mesmo cuidado recomendado no caso de André. A vistoria inicial acaba aqui. De uma coisa não restam dúvidas: Tiago, o que saiu do carro pelo próprio pé, é o que corre mais perigo. Os esforços concentram-se nele.

A ambulância é pequena para tantos gritos. “Dói-me a barriga! Quero vomitar! Deixem-me vomitar.” Mesmo abafados pela máscara de oxigénio, os berros de Tiago impressionam. Não pode sequer mover a cabeça, amparada por imobilizadores cor de laranja. Tenta dobrar as pernas presas por fitas. Dois bombeiros seguram-lhe os braços e dão espaço para o médico o observar ao pormenor. Na rua, sem os meios técnicos disponíveis em qualquer hospital, torna-se difícil fazer um diagnóstico 100% rigoroso. Mas os anos de experiência de Paulo Alves no bloco operatório ajudam-no a perceber que o abdómen da vítima inspira cuidados. Os sintomas indiciam um traumatismo grave. Seguramente terá hemorragias. Só não se sabe onde. É urgente mandar o rapaz para o hospital. Apesar de acordado, está entre a vida e a morte.
“Ponham o O2 (oxigénio) a 15 litros por minuto porque ele tem a saturação de oxigénio baixa. E preciso de uma braçadeira para avaliar novas tensões”, diz Paulo Alves. O enfermeiro retira da mala médica uma unidade de soro e um abocath (espécie de agulha). Confirma os fármacos com o médico: “Dr. Paulo, um miligrama por mililitro?” Sobe para a ambulância e avança para o braço de Tiago. “Fecha a mão.” Os dedos ficam hirtos. O rapaz não obedece. Repete que lhe dói a barriga e quer vomitar. Os dois bombeiros que tem à cabeceira pedem-lhe calma. “Fecha a mão, se fazes favor!”, diz Nuno Fernandes com voz firme. Nada. “Fecha a mão!” Por fim, o rapaz acata a ordem e o enfermeiro encontra uma boa veia para pôr o soro e os remédios a correr. “Vou dar uma piquinha. Não mexe!” Já está.
Sem que Tiago dê conta, Paulo Alves ausenta-se por minutos. Acautela que o hospital de Santarém seja avisado pelo CODU da eventualidade de a vítima precisar de ser operada. Cada segundo é vital. Avalia de novo o doente. “A mão está fria. Mantenha-a debaixo do cobertor”, pede. Os medicamentos fizeram algum efeito. Mas as tensões e o nível de oxigénio no sangue não estão famosos. Não há muito mais a fazer no terreno. “OK, sigam para o hospital.” Sem mais meio de apoio no local, o médico não pode acompanhᬠlo.

O alicate de corte rasga a chapa do carro novo de André. Vários bombeiros seguram o largo plástico que cobre o ferido para evitar que o vidro do pára¬ brisas lhe caia em cima. O marinheiro agita-se. Tem dores. “Os pés quietos”, grita o enfermeiro, enquanto canaliza uma veia, ajoelhado perto do doente. A morfina vai aliviá-lo. E evitar complicações maiores na altura de corrigir as fracturas do tornozelo direito e do fémur esquerdo. A dor excessiva aumenta o ritmo cardíaco e as dificuldades respiratórias. Por isso, tem de ser atenuada o quanto antes.
A confusão assusta André. Segura um lenço ensanguentado com as duas mãos. Uma lágrima escorre-lhe silenciosa pela cara abaixo. Com o medo, o marinheiro teve incontinência. Mais do que normal. “Calma, sr. André, vai correr tudo bem. Estamos ao pé de Almeirim”, diz o bombeiro que ainda lhe apoia a cabeça. O ruído metálico do alicate cala-se. O tejadilho solta-se da estrutura do carro. É altura de agir.
A coluna e o peito da vítima estão protegidos pelo colete de imobilização. Estuda-se agora a melhor forma de o retirar do veículo. “Vamos lá preparar. O plano duro está a postos? Tiramo-lo a três quartos pelo lugar do passageiro atrás do condutor”, orienta o enfermeiro. Assim que o puxam para lhe encaixar a maca por debaixo, André desata a gritar. A anestesia reduz a sensibilidade, mas não faz milagres. O momento de esticar as pernas e desencaixar os pés dos pedais é duro. O pior está para vir: as fracturas têm de ser corrigidas. E depressa.
“Podem trazer talas, por favor?” Nuno Fernandes aceita a tesoura da mão de um bombeiro e corta sem contemplações as calças e a camisa da farda de André. Do pescoço do rapaz, deitado em cima da maca, pendem duas chapas de identificação, iguais às dos soldados americanos. Com várias talas na mão, o enfermeiro escolhe as de tamanho correcto. Antes de as encostar à primeira perna combina a estratégia com o bombeiro que o apoia. “Eu ponho a ligadura de cima para baixo [na perna]. E tu de baixo para cima, OK?” Sabe que esta parte vai doer e quer que seja rápido. Mal lhe tiram os sapatos e as meias, André chora. Suplica que o larguem quando encaixam o tornozelo entre duas tábuas. A primeira metade do suplício termina. Falta a outra perna. E mais uma sessão de uivos.
Centenas de populares vão ganhando terreno para além das fitas que delimitam a zona do acidente. Também há gente junto dos muros das propriedades vizinhas, entre oliveiras, vinhas e plantações de morangos. Crianças inclusive. Todos ouvem os gritos de André. Ninguém desvia o olhar. O espectáculo só acaba quando a maca desliza para dentro da ambulância e o médico fecha a porta para examinar o ferido em sossego. Ausculta-lhe tórax e barriga, avalia parâmetros vitais. A tensão mantém-se alta. Deve mesmo ser da ansiedade. Caso contrário, no hospital saberão determinar a causa correcta. “Ele está a tremer de frio. Tapem-no com a manta térmica”, pede Paulo Alves. Verifica os dados que anotou e dá ordem de marcha à terceira ambulância.

São quase oito da noite e há mais uma vítima para transportar. Os trabalhos de remoção do tejadilho do segundo carro estão quase concluídos. Paulo Alves e Nuno Fernandes não esperam muito até que o homem seja retirado do carro. Reparam no baralho de cartas espalhado no chão, ao lado de pedaços de cassetes partidas. Surpreendem-se com o cachecol da selecção dobrado no bolso da porta do condutor. Mas não têm tempo para mais. A imobilização da vítima está concluída. Emílio queixa-se menos do que André. E não sofre tanto quando o transferem para a maca. Pela quarta vez, o médico ultima os preparativos para transferir um doente. O homem está em condições de responder às perguntas do médico. E isso ajuda. “Tem algum problema de saúde? Toma medicação?” Nada a declarar. “Que idade tem?” Trinta e... “Porra, não me consigo lembrar”, lamenta Emílio.
Os bombeiros retiram-lhe a roupa e as botas empoeiradas. As lesões ficam à mostra. Na barriga da vítima nota-se a marca do volante. Resta saber se ficaram sequelas internas. “Tem uma boa transmissão de ruídos no tórax. E o abdómen parece-me livre”, diz Paulo Alves ao enfermeiro enquanto ausculta. O homem queixa-se da anca direita. A pele ficou esfolada, mas parece ser apenas isso. “Estique lá as perninhas. Dê cá o braço e feche a mão, se faz favor.” Nuno Fernandes põe o soro a correr.
A última ambulância segue viagem para Santarém. Médico e enfermeiro despedem-se das tripulações de bombeiros. É tempo de voltar ao hospital. A noite cai. O turno foi movimentado. Fazem o balanço a caminho de Santarém. Paulo Alves vai preocupado com o estado de Tiago. Tem razão. À chegada ao hospital informam-no de que a vítima já seguiu para o bloco com uma hemorragia importante no fígado. O fim da história não é feliz: o marinheiro morreu nessa mesma tarde durante a operação.

Reportagem:INEM – 25 anos
Augusto Brázio / Rita Garcia

Um Obrigado Especial a
Pedro Coelho dos Santos
Director do Gabinete de Comunicação e Imagem
Instituto Nacional de Emergência Médica

Pela cedência do texto na Integra

1 comentário:

Anónimo disse...

Esta é a dura realidade de tantos herois anónimos (bombeiros, inem,etc...) e que apenas se tornam conhecidos quando a comunicação social entende que os deve humilhar. Que esses mesmos jornalistas nunca precisem destes herois.
Um abraço de reconhecimento pelo vosso grandioso trabalho, com especial cumprimento aos Bombeiros de Almeirim.

Um filho da terra.